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Artigos > História da Educação, da Educação Física e do Esporte > História da Educação Física > ASSUNÇÃO, W. R. SILVA, A. de F. OLIVEIRA, A. S. F. Americanismo na educação física brasileira: circulação e apropriação de modelos pedagógicos. In: VI Congresso Brasileiro de História da Educação, 2011, Vitória. Invenção, tradição e escritas da História da Educação No Brasil. Fortaleza: Itarget, 2011. v. 1. p. 1-15.

ASSUNÇÃO, W. R. SILVA, A. de F. OLIVEIRA, A. S. F. Americanismo na educação física brasileira: circulação e apropriação de modelos pedagógicos. In: VI Congresso Brasileiro de História da Educação, 2011, Vitória. Invenção, tradição e escritas da História da Educação No Brasil. Fortaleza: Itarget, 2011. v. 1. p. 1-15.

AMERICANISMO NA EDUCAÇÃO FÍSICA BRASILEIRA: CIRCULAÇÃO E APROPRIAÇÃO DE MODELOS PEDAGÓGICOS (1932 - 1945)

 

Wallace Rocha Assunção (UFES/CEFD/PROTEORIA)

wallra@hotmail.com

Anderson de Freitas Silva (UFES/CEFD/PROTEORIA)

mtyson@terra.com.br

Antônio Sérgio Francisco Oliveira (UFES/CEFD/PROTEORIA)

drasfo@ig.com.br

 

 

Palavras-chave: Americanismo. Pan-Americanismo. Circulação.

 

 Apoio FAPES

 

Consideramos que a Educação Física brasileira se constituiu a partir de uma série de apropriações de modelos estrangeiros, desde que as práticas corporais foram inseridas no contexto educacional e no cotidiano da sociedade como meio de educação, recreação, manutenção da saúde ou, ainda, preparo físico para a atividade laboral ou militar. Muitas contribuições para essa constituição foram feitas pelos métodos francês e alemão de ginástica, assim como pela ginástica sueca e também por práticas e prescrições americanas que circularam no Brasil desde a segunda metade do século XIX. Dito isso, este trabalho busca compreender a circulação e a apropriação (CERTEAU, 1998) do americanismo no processo de constituição da Educação Física brasileira entre as décadas de 1930 e 1940, tentando ainda entender qual foi o papel dessa circulação na política do pan-americanismo desenvolvida pelos Estados Unidos da América.

 

O americanismo é entendido como movimento político-cultural que nasce nos Estados Unidos da América e, posteriormente, é oferecido como síntese de modernidade econômica, política, educacional e industrial para outros países.

 

A partir da segunda metade do século XIX, os Estados Unidos da América aceleraram o desenvolvimento de sua hegemonia interna, apropriando-se de práticas e hábitos europeus, dando assim um caráter peculiar a essa nação e ao seu povo.

 

Com o desenvolvimento da indústria de produção em massa concebida por Henry Ford a partir de 1914,[1]os Estados Unidos da América se tornam um modelo de modernidade e de avanço tecnológico que ganha visibilidade e notoriedade diante das outras nações que, ao desejarem também o desenvolvimento em todos os setores, passam a se apropriar de muitas de suas práticas e prescrições.

 

Warde (2000, p. 37) nos aponta que, ainda em meados do século XIX, duas ou três décadas após a declaração de independência brasileira, começaram a circular, principalmente em São Paulo, teses defendendo o pensamento de que, se o Brasil quisesse trilhar o rumo do progresso, deveria não mais se espelhar na Europa, o Velho Mundo, mas sim no Novo Mundo, os Estados Unidos da América.

 

No Brasil, instalaram-se escolas confessionais ligadas a diferentes vertentes da Igreja Protestante, que não apenas atenderam a imigrantes norte-americanos, mas também a filhos de brasileiros e de outras nacionalidades e, justamente porque estenderam seu raio de ação para além desses grupos imigrados, puderam fazer circular a cultura americana e assim criar oportunidades à apropriação de padrões escolares e culturais norte-americanos.

 

Após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os Estados Unidos da América, visando à sua hegemonia no continente, reforçam a política do pan-americanismo[2]no início da chamada Guerra Fria, quando entram em disputas estratégicas e indiretas com a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas nos âmbitos políticos, militares, tecnológicos, econômicos, sociais e ideológicos.

 

Um ponto que julgamos pertinente esclarecer é quanto ao uso dos termos influência e apropriação: compreendemos influência como sugestão, coação ou imposição de usos e práticas por uma pessoa, grupo ou Estado, como estratégia para a manutenção de autoridade sobre outrem; por outro lado, a apropriação é a tática empregada para subverter a estratégia das autoridades ou possuidores do capital simbólico dominante, o que implica transformações daquilo que se pretendeu sugerir, impor ou coagir, ressignificando e, muitas vezes, fazendo usos inesperados, o que Certeau (1998) chama de consumo produtivo.

 

Assim, podemos dizer, por exemplo, que os Estados Unidos da América, buscando aumentar sua área de influência cultural, prescreveram práticas, propondo o modelo americano aos países da América Latina; estes, no entanto, se apropriaram desse modelo, ressignificando e dando um aspecto mais assimilável aos gostos e possibilidades de uso, deixando-se influenciar, ou seja, fazendo exatamente como proposto ou coagido quando julgaram conveniente e quando possuíam condições financeiras e tecnológicas, por exemplo,  para tal.

 

Com a publicação dos dois primeiros periódicos sobre Educação Física no ano de 1932 — Revista de Educação Física e Educação Physica — começaram a circular artigos na imprensa periódica que enalteciam o modo americano de se fazer Educação Física, tanto escritos por americanos e traduzidos para o português, quanto por brasileiros que tinham ligações com os Estados Unidos, por terem lá participado de algum curso ou aqui, no Brasil, terem alguma ligação com a Associação Cristã de Moços, que para cá foi trazida por americanos.

 

A atenção dada aos esportes, que traduziam para a atividade física o modelo americano de especialização e eficiência da indústria, era bastante visível nos artigos que focalizavam o basquetebol e o voleibol, esportes criados nos ginásios da Associação Cristã de Moços. Outros esportes bastante difundidos nos Estados Unidos, como o atletismo, o beisebol e a natação, também eram tratados em artigos.

 

É curioso perceber que não apenas nos artigos, mas também em anúncios de escolas e de material esportivo, podemos encontrar, tanto implícita quanto explicitamente,[3]a presença americana nesses periódicos.

 

 

Corpus documental

 

Bloch (BLOCH, 2001, p. 79) nos fala sobre as diversas fontes de informações históricas possíveis de se utilizar quando se trata de fatos a que visamos compreender: “[...] a diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica, tudo que toca, pode e deve informar sobre ele”. A qualidade das fontes somada à experiência do historiador e ao referencial teórico-metodológico torna possível entender como se deram determinados processos e suas consequências. Mais que isso, Bloch aponta para um leque quase infinito de possibilidades de fontes, cabendo ao pesquisador saber formular as perguntas adequadas às fontes que escolhe, com o cuidado de situá-las em sua época de produção, uma vez que “[...] nunca se explica plenamente um fenômeno histórico fora do estudo de seu momento” (BLOCH, 2001, p. 60).

 

Dentre as fontes históricas utilizáveis, tomamos como referências principais os periódicos sobre Educação Física, tanto pelo volume documental ao qual temos acesso, quanto pela diversidade de artigos neles publicados, o que reflete de certa forma uma estratégia de divulgação de perspectivas educacionais e de outras práticas.

 

A produção científica recente demonstrou que o periódico foi utilizado, desde o século XIX, como estratégia de divulgação das perspectivas educacionais oficiais ou não. No caso da Educação Física, a partir da década de 1930, isso é particularmente visível. Todavia, também é conhecida a circulação de textos sobre Educação Física em periódicos de áreas afins desde o final e inicio do século XIX e XX respectivamente, especialmente nas chamadas Revistas do Ensino que existiram tanto na capital do país quanto em vários Estados. Outra razão, é que nesse estudo, considera-se que a teorização sobre Educação Física realizada no Brasil do século XX tem nos periódicos uma fonte privilegiada por ser pouquíssimo explorada até o momento (PROTEORIA, 2010).

 

Trabalhar com a imprensa periódica para compreender a história e a memória da Educação Física brasileira significa tomar como fonte – e também como monumento – publicações que faziam circular opiniões de diferentes grupos e lugares; sobre as formas de se fazer a Educação Física, imagens e representações diversas que, materializadas no papel, se tornam traços, indícios. Desse modo, para compreender a circulação e apropriação de modelos pedagógicos americanos no Brasil, entre as décadas de 1930 e 1940, optamos por periódicos publicados na primeira metade do século XX como testemunhos e documentos históricos, tomando-os muitas vezes também como monumentos. Jacques Le Goff nos explica a relação entre documento e monumento e ainda alerta quanto aos cuidados que devemos ter em seu tratamento:

 

Todo o documento é um monumento que deve ser desestruturado, desmontado. O historiador não deve ser apenas capaz de discernir o que é ‘falso’, avaliar a credibilidade do documento, mas também saber desmistificá-lo.  Os documentos só passam a ser fontes históricas depois de estarem sujeitos a tratamentos destinados a transformar a sua função de mentira em confissão de verdade (LE GOFF, 1990, p. 111).

 

Dentre os periódicos que podem ser tomados como fontes históricas para a compreensão de fatos relacionados com a Educação Física brasileira, optamos pelas revistas Educação Physica, editada entre 1932 e 1945, pela Companhia Brasil Editora, e pela Revista de Educação Física, publicação de divulgação científica do Exército Brasileiro, periódico nacional mais antigo da área de Educação Física, com a sua primeira edição datando de 1932. Foi publicada pela Escola de Educação Física do Exército e, mais recentemente, pelo Instituto de Pesquisa da Capacitação Física do Exército.[4]Ambos os periódicos fazem parte do acervo do PROTEORIA, Instituto de Pesquisa em Educação e Educação Física, onde este trabalho é produzido. A Revista de Educação Física (do Exército) se encontra, em seu formato original, até o número 54. Já a revista Educação Physica se apresenta em fotocópias.

 

O uso desses periódicos se justifica pela possibilidade de captar, ao longo das publicações, os processos de continuidade e descontinuidade[5]de temas e tendências que podem ser comparados ao se utilizarem impressos contemporâneos, publicados por editoras diferentes, por grupos diferentes concorrentes pelo capital simbólico, ou seja, pela autoridade sobre um assunto em questão. Descartamos a possibilidade de utilização de um corpus documental unicamente bibliográfico por julgar que apenas a produção de livros sobre Educação Física e esportes do período não nos daria uma amostra significativa para que pudéssemos compreender a dimensão da circulação de um possível conjunto de modelos pedagógicos oriundos dos Estados Unidos da América; assim, a opção por revistas, dada a circulação de diferentes autores com ideias aglutinadas pelo perfil editorial das publicações, permite-nos notar mais claramente as tendências circulantes num recorte de tempo tal, que seja possível perceber as convergências predominantes.

 

O enfoque nesses dois periódicos se deve ainda à grande circulação que ambos tiveram, tanto em território nacional quanto em países da América Latina e em Portugal, como no caso da revista Educação Physica que veiculou muito artigos de autores estrangeiros.[6]O outro fator que colaborou para que esses dois periódicos fossem eleitos como testemunhos históricos é o fato de terem sido publicados de lugares diferentes: um por uma editora comercial e outro pela Escola de Educação Física do Exército. Ambos os periódicos são suportes materiais nos quais é possível constatar discursos, prescrições, anúncios e vestígios de uma forma geral, que indicam, direta ou indiretamente, a presença americana nessas publicações. Esses vestígios ou indícios informarão sobre a presença americana tanto pelos discursos adotados, quanto por quem os profere, a partir dos lugares de onde eles falam.

 

Uma vez que a publicação da Escola de Educação Física do Exército sofreu uma interrupção em 1942, retomando em 1947 com o mesmo perfil editorial, e a revista Educação Physica teve sua publicação interrompida em 1945, optamos pela periodização do estudo entre 1932 e 1945, período em que essa revista foi publicada numa mesma linha editorial, adotando a mesma periodização da revista veiculada pela Escola de Educação Física do Exército. Embora tenhamos periodizado o estudo entre 1932 e 1945, julgamos pertinente analisar periódicos cujas publicações prosseguiram após 1945, para compreendermos a dimensão dessa circulação do americanismo dentro do processo do pan-americanismo. O recorte de tempo adotado para se fazer uma compreensão desse processo nos parece o mais adequado, pois permite uma coleta de informações bastante abrangente sobre a presença americana nessas publicações, tendo como apoio Marc Bloch (2001, p. 150):

 

Tomemos cuidado, porém: o recorte mais exato não é forçosamente o que faz uso da menor unidade de tempo – se assim fosse, seria preciso então preferir não apenas o ano à década, mas também o segundo ao dia. A verdadeira exatidão consiste em se adequar, a cada vez, à natureza do fenômeno considerado. Pois cada tipo tem sua densidade de medida particular e, por assim dizer, seu decimal específico.

 

O uso de periódicos como corpus documental para a pesquisa histórica em Educação Física tem sido praxe dos pesquisadores do Instituto de Pesquisa em Educação e Educação Física, PROTEORIA, onde este trabalho é produzido. Dentre os trabalhos elaborados no Instituto, podemos destacar os estudos de Ferreira Neto e os de Schneider. Em sua tese de doutoramento, Amarílio Ferreira Neto (1999) fez uso, além de livros, da Revista de Educação Física para compreender como o militarismo esteve presente e interferiu na história da escolarização da Educação Física no Brasil, de 1880 a 1950.Tendo como foco a própria revista Educação Physica, Omar Schneider (2003) estuda, em sua dissertação de mestrado, as estratégias editoriais e as prescrições educacionais feitas a partir desse periódico. Também Campos Berto (2008), por seu turno, em sua dissertação, ao investigar esses dois periódicos, busca compreender o modo como foram produzidas e veiculadas as representações acerca da educação da infância escolarizada ou fora da escola, entre as décadas de 1930 e 1940, investigando como os conhecimentos eram abordados pelos diferentes grupos de intelectuais que projetavam a Educação Física nesse período.

 

Referencial teórico-metodológico

 

Para interrogar o corpus documental, lançamos mão de um referencial teórico metodológico da Nova História Cultural ou que dessa corrente historiográfica se aproxime. Oriundo da Revue des Annales, que publicou em parceria com Lucien Febvre, Marc Bloch, em sua obra Apologia da história, ou o ofício do historiador (2001), define o que é história e discorre sobre seus elementos, indicando, segundo o ponto de vista desse autor, os meios de escrevê-la de forma mais consistente e coerente, sendo claro quanto ao seu objeto:

 

[...] o objeto da história é, por natureza, o homem. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural, que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade [...]. Por trás dos grandes vestígios sensíveis da paisagem, [os artefatos ou as máquinas] por trás dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar (BLOCH, 2001, p. 54).

 

No que tange às fontes, Bloch (BLOCH, 2001, p.79), nos diz que a diversidade de testemunhos é infinita, porém a responsabilidade do que se extrai dessas fontes é do pesquisador, pois “[...] os textos ou os documentos arqueológicos, mesmo os aparentemente mais claros e mais complacentes, não falam senão quando sabemos interrogá-los” e, mesmo sabendo interrogá-los, há que se precaver de confiar em todas as respostas obtidas, pois “[...] nem todos os relatos são verídicos e os vestígios materiais, [eles] também, podem ser falsificados [pois] com tinta, qualquer um pode escrever qualquer coisa” (BLOCH, 2001,  p.89). E qual seria a finalidade da História para Marc Bloch? Esse autor nos responde:

 

[...] uma palavra, para resumir, domina e ilumina nossos estudos: ‘compreender’ [e] compreender, no entanto, nada tem de uma atitude de passividade [pois] assim como todo cientista, como todo cérebro que, simplesmente, percebe, o historiador escolhe e tria. Em uma palavra, analisa (BLOCH, 2001, p. 128).

 

Por seu turno, Michel de Certeau, em A operação histórica (1988), com sua formação clássica em Filosofia, lança, interessado pela história, questões sobre o processo historiográfico e faz, entre outras reflexões, uma que se refere às fontes: “[...] de resíduos, papéis, legumes, até mesmo de geleiras e de ‘neves eternas’ o historiador faz outra coisa: faz deles história” (CERTEAU, 1988, p. 38), e é justamente dos resíduos impressos nos papéis que buscamos investigar a circulação de possíveis modelos americanos. O conceito de consumo produtivo, presente na obra A invenção do cotidiano (CERTEAU, 1998), auxilia-nos na compreensão das apropriações de modelos americanos que circularam, pois é possível que os artigos e todo o conjunto de representações que foram veiculados nesses periódicos tenham sido lidos das mais diferentes formas, pelos mais diferentes professores de Educação Física, instrutores e técnicos esportivos, fazendo apropriações e usos inesperados daquilo que liam como síntese de modernidade e vanguarda.

 

Roger Chartier, em O mundo como representação (1991), indica-nos um meio de compreender o processo de apropriação da cultura americana que tem como foco a representação, e assim ele nos direciona à história dos textos impressos e sobre como esses textos foram lidos e qual uso foi feito deles, pois

 

Os que podem ler os textos, não os lêem de maneira semelhante, e a distância é grande entre os letrados de talento e os leitores menos hábeis, obrigados a oralizar o que lêem para poder compreender, só se sentindo à vontade frente a determinadas formas textuais ou tipográficas. Contrastes igualmente entre normas de leitura que definem, para cada comunidade de leitores, usos do livro, modos de ler, procedimentos de interpretação. Contrastes, enfim, entre as expectativas e os interesses extremamente diversos que os diferentes grupos de leitores investem na prática de ler (CHARTIER, 1991, p. 8).

 

Por representação, considera-se o modo pelo qual, em diferentes lugares e momentos, uma determinada realidade é construída, pensada e apresentada, dada a ler, compreender e fazer usos e apropriações por diferentes grupos sociais. Chartier toma por empréstimo de Michel de Certeau o conceito de apropriação, que define o consumo cultural como uma operação de produção de objetos materiais ou imateriais, que passa a ter materialidade quando impressa ou tratada como representação, assinalando a sua presença a partir de maneiras de utilizar os produtos que lhe são impostos. Assim, Chartier nos ajuda a compreender como possivelmente foram lidas as matérias veiculadas nesses periódicos, carregados de possíveis modelos americanos e como pôde ser possível uma apropriação desses modelos.

 

Semelhante ponto de vista nos é dado por Carlo Ginzburg que volta a atenção para o fenômeno da circularidade cultural descrito por Mikhail Bakhtin (GINZBURG, 2000), como referência para o desenvolvimento de pesquisas com o repertório conceitual da micro-história, e relata em O queijo e os vermes (GINZBURG, 2000), as consequências dos usos [apropriações] feitos por “leitores menos hábeis” de textos que a estes não foram destinados. Por meio de vestígios e sinais, Ginzburg resgata, nos arquivos da Inquisição, a história de Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, moleiro da cidade italiana de Friulli que interpretou e mesclou de forma inusitada os textos aos quais teve acesso. Ao escrever a malfadada história de Menocchio, mostra-nos como questionar as fontes disponíveis sobre o que buscamos compreender, inferindo em documentos que a nós não foram a princípio destinados e deduzindo a partir daquilo que foi registrado.  

 

Quando o foco se voltar para a construção da memória da Educação Física brasileira, lançaremos mão dos trabalhos de Fernando Catroga e Jacques Le Goff como referencial teórico. Le Goff (LE GOFF, 2003, p. 424) conceitua a memória como “[...] propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas”.

 

Assim, ao analisar o corpus documental, será possível perceber, nos discursos, práticas e presenças, o que a seletividade da memória manteve ou relegou ao esquecimento. Catroga (2001, p. 20-21), por seu turno, afirma:

 

[...] ela [a memória] não é um armazém que, por acumulação, recolha todos os acontecimentos vividos por cada indivíduo, um mero registro, mas é retenção afectiva e ‘quente’ do passado feita dentro da tensão tridimensional do tempo. E os seus elos com o esquecimento obrigam a que somente se possam recordar partes do que já passou.

 

“Não há representação memorial sem traços” (CATROGA, 2001, p. 24), ou seja, sem um monumento que evoque uma memória e, em particular, nesta pesquisa, os periódicos têm tanto a função de testemunhos históricos, quanto de documentos e monumentos, aos quais interrogamos sobre a forma como a memória e os esquecimentos da Educação Física brasileira foram construídos. Para tanto, lançamos mão, em alguns momentos, das reflexões de Paul Ricoeur (2007, p. 48),[7]no que ele chama de “esforço de recordação”:

 

É de fato o esforço de recordação que oferece a melhor ocasião de ‘fazer memória do esquecimento’ [...]. A busca da lembrança comprova uma das finalidades principais do ato de memória, a saber, lutar contra o esquecimento, arrancar alguns fragmentos de lembrança à ‘rapacidade’ do tempo [...], ao ‘sepultamento’ no esquecimento.

 

Se tanto memórias quanto esquecimentos foram produzidos, buscamos compreender como se deu esse processo, utilizando os periódicos que respondem sobre quem, de onde e como, com seus discursos e prescrições, se apropriou e fez circular modelos americanos na Educação Física brasileira, o que contribuirá para uma maior e melhor compreensão da história e da memória da construção da identidade da Educação Física em nosso país.

 

Resultados preliminares

 

Na coleta de dados, encontramos, na Revista de Educação Física, 63 artigos que tratavam de práticas da Educação Física que estivessem relacionadas de alguma forma com os Estados Unidos da América. Dentre os artigos publicados, 17 foram escritos por autores americanos, e foram traduzidos na Revista de Educação Física entre os anos 1932 e 1942, ano em que ocorre uma interrupção da publicação até 1947, por conta do envolvimento do Brasil com os Estados Unidos e os Aliados na Segunda Guerra Mundial, o que mobilizou esforços de todo o segmento militar. Desses 63 artigos sobre práticas americanas, 27 são referentes ao basquetebol e sete ao voleibol.

 

Na revista Educação Physica, entre 1932 e 1942, foram contados 318 artigos que tratam de assuntos que têm alguma relação com os EUA. Escrevendo sobre temas que não necessariamente diziam respeito a práticas ou que fossem prescrições, 312 artigos foram escritos por americanos e traduzidos para o português. Quem e, mais importante, como traduziu esses textos, não sabemos, pois, salvo algumas exceções, as revistas não trazem essa informação. Pensamos que o acesso aos textos originais em inglês talvez pudesse nos indicar se o texto foi traduzido com alguma adaptação ou distorção; entretanto, ao salientarmos que grande parte da equipe editorial era ligada à Associação Cristã de Moços, sendo, assim, simpáticos ao modo de vida americano como expressão de modernidade, podemos supor que as traduções tenham recebido algum acréscimo de exaltação a esse país. Dos 318 artigos sobre práticas e prescrições oriundas dos Estados Unidos, 85 foram relacionados com o basquetebol, 24 com voleibol e seis focalizaram diretamente a Associação Cristã de Moços (A.C.M.).

 

Se ampliarmos o recorte até 1950, para que possamos cobrir todas as publicações de Educação Physica e as publicações de 1947 a 1950 da Revista de Educação Física, encontraremos apenas mais quatro artigos escritos por autores americanos na revista publicada pela Escola de Educação Física do Exército. Contamos mais 19 artigos relacionados com a maneira americana de se trabalhar com a Educação Física ou sobre os esportes oriundos dos Estados Unidos. Foram publicados mais nove artigos sobre basquetebol e três sobre voleibol. De 1943 a 1945, encontramos na revista Educação Physica mais 44 artigos escritos por autores americanos. Dentre todos os artigos publicados nesses três anos, 19 foram associados ao modo americano de se trabalhar com a Educação Física e, dentre esses, dez referiam-se ao basquetebol. A partir de 1943, não mais foram publicados artigos sobre o voleibol.

 

É perceptível a disparidade numérica de autores americanos e de artigos sobre práticas de origem americana entre as duas publicações. Pensamos que o fato de a Revista de Educação Física ser uma publicação da Escola de Educação Física do Exército, ou seja, um órgão oficial do Estado, tenha contribuído para que houvesse uma ênfase maior às matérias e autores que dissessem mais de práticas nacionais do que de práticas estrangeiras, especialmente americanas, embora estas ainda estivessem presentes. Por outro lado, a revista Educação Physica, publicada por uma editora comercial, tendo em sua equipe editorial pessoas ligadas à Associação Cristã de Moços, veicula, em suas páginas, artigos de autores americanos e sobre práticas americanas com maior liberdade. Vale ressaltar que ambas as publicações ocorreram a partir de 1932, durante o período em que Getúlio Vargas foi o chefe do Governo Provisório, prosseguindo durante o Governo Constitucional, quando ele foi eleito presidente pela Assembleia Nacional Constituinte. A revista Educação Physica foi publicada até o último ano do Estado Novo, em 1945, o que torna coerente a ideia de que o pensamento nacionalista pautasse e controlasse a origem dos artigos e dos assuntos publicados na Revista de Educação Física, mas, ainda nesse perfil editorial, com todo o controle feito pelo Exército, pode-se constatar a circulação do americanismo em suas páginas, tanto pela força que esse tema exercia sobre a sociedade brasileira naquele momento, quanto pela competição existente no campo editorial da área de Educação Física.

 

É curioso perceber o entusiasmo com que autores brasileiros escrevem sobre práticas americanas, reforçando a ideia de modelo de modernidade e avanço cultural que os EUA representavam. Esportes, como o basquetebol e o voleibol, são trazidos em pormenores, com explicações de regras e sugestões de práticas; hábitos de higiene e de bons costumes são prescritos como síntese de civilidade; artigos que enaltecem o valor da liderança na figura do coach[8]são frequentes, bem como artigos de cunho moral e higienista. Temos indícios, nas páginas dessas duas revistas, de que os editores compravam a representação que os Estados Unidos ofereciam de modernidade e avanço cultural, mesmo quando subordinados a uma linha editorial controladora, como supomos ser o caso da Revista de Educação Física. A presença dessas representações nas páginas das revistas, a despeito das barreiras possivelmente interpostas pela linha editorial de uma delas, é um indício da força desse processo de circularidade cultural (GINZBURG, 2000) entre os Estados Unidos e os demais países da América Latina que faziam circular nesse país sua cultura exótica e caricaturizada pelo cinema americano, como pode ser visto em Olhar estrangeiro (OLHAR, 2006), um filme sobre os clichês e as fantasias que se avolumam no cinema estrangeiro sobre o Brasil.

 

É preciso que se diga, entretanto, que, em especial na revista Educação Physica, ocorre uma disputa de representações que exalta tanto os Estados Unidos quanto a Alemanha como modelos de modernidade a ser seguidos:

 

Mas também é possível perceber que, mesmo nos Estados Unidos da América, as representações estão em disputa, pois algumas matérias traduzidas desse país utilizam a Alemanha como referência no tratamento das questões educacionais e esportivas (SCHNEIDER, 2010, p. 102).

 

Isso nos leva a pensar que, da mesma forma que nos apropriamos, no Brasil, de práticas germânicas, como no caso do método ginástico alemão que em certos momentos e lugares têm circulação, os Estados Unidos da América, ao ver em destaque que a Alemanha nazista possuía entre as nações europeias, tomaram-na como modelo de esportivização, especialmente após os Jogos Olímpicos de Verão de 1936, nos quais a Alemanha supera os Estados Unidos tanto no total de medalhas quanto nas medalhas de ouro.[9]Em muitos artigos de Educação Physica, mesmo aqueles que não tratassem diretamente sobre a Alemanha, vemos fotos e gravuras que representam a força e a beleza das formas corporais aliadas aos semblantes austeros, quase sempre tendo ao fundo uma bandeira ou algum monumento que trouxesse a cruz suástica, tomada como símbolo do nacional socialismo alemão. A partir de 1941, quando o Brasil rompe ligações diplomáticas com a Alemanha, essas imagens e artigos deixam de ser veiculados, dando lugar a um movimento de tensão e de críticas ao tipo de organização esportiva nazista (SCHNEIDER, 2010).

 

As representações sobre a melhoria da raça, via esportivização da sociedade, segundo o modelo alemão, são muito fortes no periódico e somente depois que o Brasil rompe relações diplomáticas com a Alemanha é que esse país deixa de ser o exemplo a ser seguido, o que culmina com a fase em que a Revista passa a ter dificuldade para manter sua periodicidade (SCHNEIDER, 2010, p. 191, grifo do autor).

 

Queremos ressaltar a presença de artigos sobre a Associação Cristã de Moços na revista Educação Physica e a ausência desses artigos na Revista de Educação Física, editada pela Escola de Educação Física do Exército. Além dos seis artigos que tratam diretamente da A.C.M., encontramos anúncios, algumas vezes de página inteira, o que demonstra uma forte presença que extrapola os artigos que tratam diretamente sobre essa instituição. Schneider e Ferreira Neto (2008, p. 14) nos chamam a atenção ainda para o fato de que, “quando observamos o número de colaboradores que são designados pelos editores como aqueles que dão suporte ao impresso, percebemos que, dos 33 que são apresentados aos leitores, 14 possuem algum tipo de ligação com a Associação Cristã de Moços(A. C. M.) [...]”.  

 

Tantos colaboradores ligados à A.C.M. poderiam nos levar a pensar que, a princípio, a A.C.M. seria um lugar de difusão de valores e representações americanas; entretanto, é preciso nos precaver com relação a um julgamento precipitado, pois:   

 

A simples presença de americanos ajudando a compor o grupo de colaboradores que dava suporte ao impresso, ou professores formados em uma instituição com forte presença norte-americana não caracteriza a revista como um veículo de divulgação dos ideários ou representações norte-americanas a respeito da produção do ‘homem novo’, pois muitas das imagens, tanto iconográficas como discursivas, remetem para a Alemanha, e mesmo a representação que esteticamente representava o ‘homem novo’ fazia parte do ideário nazista em que o biótipo era o do homem europeu caucasiano (SCHNEIDER; FERREIRA NETO, 2008, p. 14). 

 

Por outro lado, acreditamos que a constante presença americana, tanto em matérias sobre esportes quanto sobre comportamentos moralizantes, em maior quantidade na revista Educação Physica que na Revista de Educação Física, possa ser compreendida como uma consequência da produção de uma política que se sintetizaria em um ideário pan-americanista dos Estados Unidos da América que, buscando abranger sua área de influência sobre os demais países do continente americano, encontraram, na imprensa de Educação Física Brasileira, mais um lugar onde pudessem fazer esse país visível como modelo de modernidade e exemplo a ser seguido. Em tempo: pensamos ser prudente mencionar o fato de que esse novo lugar de exposição do modelo americano pode não ter sido diretamente visado pelos Estados Unidos, mas que funcionou como um suporte material para a visibilidade desse modelo graças ao processo da circularidade cultural (GINZBURG, 2000).

 

O ideário pan-americanista no início da década de 1940, apresentou-se de duas formas distintas, e é curioso perceber que, se, por um lado, os Estados Unidos pretendiam um projeto político-ideológico pan-americanista com base no modelo monroísta de expansão, os países latino-americanos, inspirados no bolivarismo, pretendiam se unir para a resolução de problemas comuns. Esse ideário pan-americanista de inspiração bolivarista se refletiu no campo da Educação Física: em 10 de maio de 1941, realiza-se em Buenos Aires, Argentina, uma reunião preparatória para o Primeiro Congresso Pan-americano de Educação Física. Sobre os assuntos tratados nessa reunião, chegaram à seguinte conclusão:

 

Que América, hoy más que nunca podía llamarse Occidente, tenia serios problemas educacionales que resolver, y que era indispensable crear una conciencia sanitaria y desarrollar la personalidad de la juventud con altos ideales, que suministra la práctica de la educación física (ACTA, 1941, n. 2, p. 52).[10]

 

O Congresso foi marcado então para

 

[...] realizar-se na cidade do Rio de Janeiro, Capital dos Estados Unidos do Brasil, de 19 a 31 de julho de 1943, [...] com o objetivo de fomentar o estudo dos problemas relacionados com a educação física e colaborar com os Govêrnos das Nações Americanas na coordenação das atividades dêste ramo de educação integral dos povos (RENAULT, 1943, p. 39).

 

Nesse congresso, discutiu-se, como um dos temas da seção de Política Educacional, a questão da criação de métodos diferentes de Educação Física para os países americanos ou de um único método pan-americano. Na mesma seção, tratou-se de um outro tema, a “Influência da Educação Física na reconstrução social após a presente guerra” (RENAULT, 1943, p. 42). Foram considerados como idiomas oficiais do Congresso o português, o espanhol, o inglês e o francês (RENAULT, 1942). Nas conclusões desse congresso, consta que foi decidido

 

[...] considerar o Congresso Panamericano de Educação Física como instituição de caráter permanente, com as finalidades de manter latente o intercâmbio e colaborar com os govêrnos e instituições educativas das repúblicas americanas, na coordenação das atividades dêste ramo da educação integral dos povos (CONCLUSÕES, 1943, n. 7, p. 9).

 

No n. 82 da revista  Educação Física, de agosto de 1944, anuncia-se a realização do II Congresso Pan-Americano de Educação Física para o período de 2 a 16 de maio de 1945. Nesse texto, permeado por um sentimento pan-americano e até mesmo generalista, afirma-se que

Os problemas da Educação Física são sempre os mesmos, qualquer que seja o país em que êles se verifiquem, porque a Educação Física não difere na sua essência quando atravessamos as fronteiras políticas de um país para outro. Por isso, poderemos levar uma solução brasileira para um problema mexicano, do mesmo modo que de lá poderemos trazer a solução para um problema nacional (O II CONGRESSO, 1944, n. 82, p. 5).

 

Para compreendermos melhor o ideário pan-americanista de inspiração bolivarista, mas já fazendo circular uma tendência americana de união dos povos americanos sob uma inspiração monroísta[11]que  circulava na revista Educação Physica, julgamos pertinente procurar vestígios em artigos relacionados com o movimento pan-americanista, e encontramos um que nos chamou a atenção. Em artigo intitulado Panamericanismo, publicado no n. 65 da revista Educação Physica, Holanda Loyola (1942,  n. 65, p. 11, grifo nosso)exalta os serviços que os desportos e a Educação Física

 

[...] poderão prestar à causa dos ideais panamericanistas, à amizade, à concórdia e à compreensão recíproca de todos os povos americanos, congregando-os em torno de um ideal supremo de felicidade humana, inspirada na paz e no direito, na justiça e na Liberdade”.

 

Mais adiante, Loyola enaltece o potencial que as competições esportivas realizadas com espírito de cordialidade e “[...] senso olímpico da verdadeira competição atlética” (1942, p. 11) têm para melhorar o entendimento entre as nações. O artigo, em nosso entendimento, faz apologia ao ideal pan-americanista de inspiração bolivarista, porém já com alguns vestígios da presença do monroísmo, quando diz: “Esse ideal de aproximação americanista é comum a todos os professores das Américas sinceramente empolgados em trazer às gerações presentes e futuras um ambiente de paz e harmonia propício às grandes realizações do pensamento humano” (LOYOLA, 1942, n. 65, p. 11).

 

Não podemos, entretanto, afirmar que Loyola tenha empregado o termo “americanista” usando a metonímia, tomando a parte, os Estados Unidos, como o todo, o continente americano, pois o contexto remete ao pan-americanismo, o que tornaria o termo “americanista” sinônimo de pan-americanista.

 

Ressaltamos que tanto os Estados Unidos quanto o Brasil tinham a Alemanha como modelo de eugenismo e higienismo para a produção do “homem novo” enquanto o nacional-socialismo alemão não se constituiu uma ameaça.

 

Um dos pontos do programa dos editores [da revista Educação Physica], veiculado por meio da Revista durante todo o período em que ela é produzida, consistia em favorecer o surto dos esportes como fator de aperfeiçoamento da raça.Para os editores, a Alemanha, sob o regime nazista, constitui-se em um ótimo exemplo do que a implementação da Educação Física e dos Esportes poderia fazer em prol da juventude. Implementar no Brasil o mesmo programa de Educação Física poderia, na visão dos editores, tornar realidade o desenvolvimento da eugenia do povo e produzir a tão desejada configuração corporal helênica, modelo moderno de saúde e de beleza (SCHNEIDER, 2010, p. 184).

 

A partir do rompimento diplomático com a Alemanha, tanto por parte dos americanos quanto dos brasileiros, e principalmente com o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, que resultou em um mundo dividido entre o capitalismo e o comunismo, os Estados Unidos intensificaram a sua estratégia para o estabelecimento de uma união pan-americana, sobre a qual pretendiam exercer influência em todos os âmbitos. Um indício da aproximação cultural entre o Brasil e os Estados Unidos pode ser visto na versão em português do cartaz referente aos Primeiros Jogos Esportivos Pan-Americanos, a se realizar em 1942, em Buenos Aires, Argentina, que estampou o n. 48 da Revista de Educação Física: a despeito da distância geográfica entre o Brasil e os Estados Unidos, as bandeiras desses dois países foram colocadas juntas. Sobre o cartaz, encontramos na revista:

 

[...] sente-se que a representação da parte do globo terráqueo onde aparece em relevo as Américas e o círculo de bandeiras que a envolve, traduz em expressão felicíssima, o desejo panamericanista de manter os povos americanos em perfeita compreensão, unidos e serenos, diante das dificuldades e incertezas que avassalam o globo (A NOSSA, 1941, n. 48,p. 8).

 

As memórias e os esquecimentos em relação à presença e circulação de possíveis elementos que poderiam ser caracterizados como padrões americanos são produzidos simultaneamente à tentativa de autores, como Inezil Penna Marinho, de fazer uma cronologia da Educação Física brasileira. Embora, em suas obras Contribuições para a história da Educação Física e dos desportos no Brasil (MARINHO, 1943) e História da Educação Física (MARINHO, 1980), haja menções às práticas esportivas americanas, como o voleibol e o basquetebol, Marinho não menciona que, por meio desses esportes e no contexto da Associação Cristã de Moços, ocorreu a difusão da cultura americana, trazendo uma recordação apenas de “[...]partes do que já passou” (CATROGA, 2001, p. 21).

 

Não podemos afirmar que a causa do esquecimento da presença americana na imprensa e na área da Educação Física produzido concomitantemente à lembrança das práticas esportivas oriundas dos Estados Unidos tenha sido intencional, pois, talvez por estar tão próximo a esse fenômeno de circulação, Marinho o tenha percebido de forma natural, não atribuindo a esse fato a devida importância na constituição da Educação Física Brasileira. Outro fator que possivelmente contribuiu para essa configuração da memória referente à Educação Física brasileira é que a corrente historiográfica da Nova História Cultural, com os conceitos de representação e circularidade cultural aplicados à escrita da micro-história, só tenha sido difundida após 1980 e, por isso, até o início dessa década, a história de nossa Educação Física tenha sido escrita com o intuito de descrever os acontecimentos ou apenas traçar uma cronologia dos fatos mais relevantes.

 

A falta de compromisso ou de interesse em tentar compreender os movimentos e disputas de campo na constituição de um possível modelo brasileiro de Educação Física é um fator que possivelmente interferiu na produção da memória e é possível que também tenha retardado o processo de se tomar os vestígios e seus suportes como monumentos que evocassem a memória das práticas de Educação Física dessa época.

 

Referências

 

A NOSSA capa. Revista de educação física, Rio de Janeiro, ano 10, n. 48, p. 8, set. 1941.

 

ACTA de la reunión preparatoria del primer congreso panamericano de educación física. Boletim de Educação Física, Rio de Janeiro, ano I, n. 2, p. 51-54, set. 1941.

 

BERTO, Rosianny Campos, Regenerar, civilizar, modernizar e nacionalizar: a educação física e a infância em revista nas décadas de 1930 e 1940. 182 f. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Educação Física e Desportos, Vitória, 2008.

 

BLOCH, Marc. Apologia da história, ou O ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

 

CATROGA, Fernando. Memória, história e historiografia.Coimbra: Quarteto Editora, 2001.

 

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 3. ed. 3. Petrópolis: Vozes, 1998.

 

CERTEAU, Michel de. A operação histórica. In: LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (Org.) História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988. p.17-48

CHARTIER, Roger. O mundo como representação. Estudos Avançados, n. 11, p.115-127. jan./abr. 1991.

CONCLUSÕES finais do I Congresso panamericano de Educação Física. Boletim de Educação Física, Rio de Janeiro, ano 3, n. 7, p. 7-13, ago.1943.

 

FERREIRA NETO, Amarílio. A pedagogia no exército e na escola:educação física brasileira (1880 -1945). Aracruz: FACHA, 1999.

 

GINZBURG, Carlo. Mitos emblemas e sinais.São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

 

GRAMSCI, Antonio. Americanismo e fordismo. São Paulo: Hedra, 2008.

 

LOYOLA, Hollanda. Panamericanismo.  Educação Física,Rio de Janeiro, n. 65, p.

11, jun. 1942.

 

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Editora UNICAMP, 2003.

 

MARINHO, Inezil Penna. Contribuições para a história da educação física e dos desportos no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943.

 

MARINHO, Inezil Penna. História da educação física no Brasil. São Paulo: Cia. Brasil Editora, 1980.

 

O II CONGRESSO panamericano de educação física.  Educação Física,  Rio de Janeiro, n. 82, p. 5, ago. 1944.

 

OLHAR estrangeiro. Direção Lucia Murat. Produção: Taiga, Limite e Okeanos. 2006.

 

PROTEORIA. Disponível em <http://www.proteoria.org/justificativa.htm>. Acesso em: 18 nov. 2010.

 

RENAULT, Abgar. Primeiro congresso panamericano de educação física. Boletim de Educação Física, Rio de Janeiro, ano III, n. 6, p. 39-44, abr. 1943.

 

RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento.Campinas:Editora UNICAMP, 2007.

 

SCHNEIDER, Omar; FERREIRA NETO, Amarílio. Americanismo e a fabricação do homem novo: circulação e apropriação de modelos culturais na revista Educação Physica (1932-1945). Movimento, Porto Alegre, v. 14, p. 135-159, 2008.

 

SCHNEIDER, Omar. Educação physica: a arqueologia de um impresso. Vitória: EDUFES. 2010.

 

WARDE, Mírian Jorge. Americanismo e educação: um ensaio no espelho. São Paulo em Perspectiva,n.14. São Paulo, 2000.

 

WARDE, Mirian Jorge. Cultura e educação: o americanismo e a fabricação do homem. Relatório da reunião da equipe de pesquisa “Americanismo e Educação” realizada nos dias 25 e 26 de junho de 2001, na PUC, SãoPaulo, jun. 2001

 

 

 

 

 

Notas



[1]Espelhado no modelo de padronização e simplificação nos processos industriais e de eficiência e eficácia operacional na administração industrial de Frederik Winslow Taylor, modelos denominados Fordismo e Taylorismo que Gramsci (2008) une sob o termo americanismo mas que neste trabalho assume um caráter mais abrangente.

[2]Inspirada no monroísmo, a forma norte-americana do pan-americanismo  fundamenta-se no predomínio dos Estados Unidos sobre os demais Estados americanos, o que diverge do bolivarismo, que pregava a igualdade entre as nações. Baseado na mensagem presidencial de James Monroe, enviada ao congresso dos EUA em 1823, o monroísmo negava aos Estados europeus o direito de intervenção no continente americano. Esse movimento foi um reflexo da preocupação norte-americana com sua própria segurança, e não com a dos demais Estados americanos. Foi também um projeto de expansionismo dos EUA e a intenção era garantir o livre comércio com os países recém-independentes.

[3]Encontramos anúncios que veiculam o termo “americano” como modelo de modernidade e outros em que imagens e grafismos remetem aos Estados Unidos da América.

[4]Disponível em: <http://www.revistadeeducacaofisica.com.br/paginas/arevista.htm>. Acesso em: 29 nov. 2009.

[5]Como continuidade ou descontinuidade, entendemos a frequência de determinados temas ou tendências dentro de um recorte temporal. Assim, podemos dizer, por exemplo, que houve uma continuidade de matérias publicadas sobre o basquetebol em determinados números seguidos de uma revista, havendo a descontinuidade do tema quando o foco se volta para o voleibol, retornando ao basquetebol a partir de um número posterior, bem como a ocorrência de assuntos relacionados com os dois esportes no mesmo número, numa sequência de publicações.

[6]Artigos publicados em espanhol, sua língua original, e também traduzidos de originais ingleses e franceses.

[7]Algumas vezes trazido para compreender a memória e o esquecimento como apoio às reflexões de Catroga.

[8]Treinador ou técnico. O termo coach e seu derivado coaching são atualmente usados na área de marketing e administração empresarial como analogia à figura do treinador de uma equipe esportiva, que treina e incentiva seus atletas.

[9]A Alemanha teve um total de 89 medalhas contra 56 dos Estados Unidos; foram 33 medalhas de ouro conquistadas pelos alemães enquanto os americanos conseguiram 24.

[10]Que a América, hoje mais que nunca, poderia se chamar Ocidente, possuía sérios problemas educacionais a resolver, e era indispensável criar uma consciência sanitária e desenvolver a personalidade da juventude com altos ideais, que a prática da Educação Física proporciona. (Tradução nossa)

[11]Lembrando que, nesse contexto, tanto os Estados Unidos quanto o Brasil já haviam rompido relações diplomáticas com a Alemanha, e, sob pressões diplomáticas e incentivos econômicos, os Estados Unidos, em 1942, haviam instalado bases militares ao longo da costa norte-nordeste, visando a uma menor distância para o desembarque de tropas anglo-americanas no norte da África, o que viria a acontecer em novembro desse ano.

Instituto de Pesquisa em Educação e Educação Física (PROTEORIA), http://www.proteoria.org
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Prévia do artigo FREITAS, L. L. L. de; SCHNEIDER, O.; FERREIRA NETO, A. Hollanda Loyola, produção e circulação de saberes escolares: infância e Educação Física (1938-1944). In: VIII Congresso Luso Brasileiro de História da Educação, 2010, São Luiz, MA. Infância, juventude e relações de gênero na História da Educação. São Luiz, MA: UFMA, 2010. v. 1. p. 1-19. SCHNEIDER, O.; ALVARENGA, J. A.; BRUSCH, M. Educação, ginástica e educação física: apropriações da pedagogia moderna no Espírito Santo entre as décadas de 1910 e 1930. In: VI Congresso Brasileiro de História da Educação, 2011, Vitória. Invenção, tradição e escritas da História da Educação No Brasil. Fortaleza: Itarget, 2011. v. 1. p. 1-15. Próximo artigo
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